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A politização do Cristianismo Por Alvaro R. Velloso de Carvalho No seu livro sobre o radicalismo político nos EUA, o historiador Christopher Lasch mostra como o radicalismo "deu sentido a muitas vidas". No filme Reds, história de um jornalista comunista americano que cobriu a Revolução Russa, há uma cena em que uma senhora vira-se para o jornalista e critica a crescente tirania do Estado soviético. Ele defende o regime e termina sua defesa com a pergunta: se não for assim, o que terá significado toda nossa vida? É conhecida a aptidão do intelectual moderno para a luta política. A política, em nossos tempos, foi alçada à condição de instância decisiva de todos os problemas. Não importa que você diga besteiras, desde que você esteja comprometido com "causas sociais"; não importa que você defenda idéias absurdas, desde que você tenha boas intenções e queira melhorar o mundo. Você será qualificado na exata medida que você agradar aos ideais políticos da moda, e na exata proporção que repetir os slogans preferidos do establishment. Desta forma, defensores dos regimes mais mortíferos da História aparecem como pessoas lindas; e o singelo intelectual que quer apenas restaurar verdades esquecidas é considerado um alienado, um reacionário. Nisso tudo existe aquilo que Julien Benda chamou de a traição dos clérigos: os intelectuais deixaram de cumprir sua função primordial, que é a de descobrir a verdade, em nome de funções secundárias. Se a intelectualidade está politizada, é impossível que ela se dedique à busca da verdade. O motivo é simples: politização significa também partidarização. Cada intelectual se integra num grupo, coerido em torno de determinados ideais e que busca destruir o grupo contrário. Surgem mil suscetibilidades que não podem ser quebradas, instala-se o reinado das frases de efeito e dos elogios mútuos. Se algum fato contradiz as idéias usadas para defender o ideal, é imediatamente negado, ou descartado sob qualquer pretexto. O reino da política é o reino dos compromissos, dos acordos espúrios; é o reino do esquema amigo-inimigo, que deixa muito pouco espaço para a verdade. Nada, pois, pode causar mais escândalo do que ver politizada aquela instituição incumbida pelo próprio Jesus Cristo de guardar a Sua mensagem. Nada mais escandaloso do que ver o cristianismo politizado. E não é a isso que estamos assistindo, desde o Concílio Vaticano II? Quando o Concílio anunciou que a Igreja se integraria ao mundo, que passaria a se modificar para melhor atender aos anseios da modernidade, o que estava ele anunciando senão a politização do cristianismo? Os efeitos disso não tardaram a aparecer, em insuportáveis genuflexões perante o mundo moderno, ao mesmo tempo que se profanavam as igrejas. Foi assim logo no começo do Concílio – com o pacto de Metz, selado entre um mandatário do papa João XXIII e emissários da KGB (em nome da Igreja Ortodoxa), no qual a Igreja se comprometeu a não condenar o comunismo. Foi assim no pedido de desculpas aos judeus por eventuais omissões durante a 2ª Guerra, quando os próprios judeus, anos atrás, reconheceram em Pio XII um benfeitor. E tem sido assim, para nosso pesar, em praticamente todas as notícias que chegam das igrejas pelo Brasil afora. Ora, existe uma contradição fundamental entre a fé católica e o mundo, no sentido do Concílio de Trento. A verdadeira pátria do cristão não é neste mundo, ensinava Jesus Cristo. A ordem de operações da cristandade não pode, pois, ser voltada para as aspirações transitórias deste mundo. A verdadeira vida do cristão é a Vida Eterna, diante da qual esse mundo tem existência fugaz e precária. No entanto, o que vemos nos ambientes católicos é o acanhamento em relação ao mundo. É a adoção de critérios mundanos e materialistas para julgar a Revelação. Agora vejam o que há de mais triste nisso: os católicos jogam fora aquele tesouro que lhes cabia guardar. Ou, melhor dizendo, os nominalmente católicos. É possível acreditar-se católico e não sê-lo. Claro que ainda existem católicos verdadeiros, e enquanto eles existirem, persistirá a Igreja Católica. Houve, porém, o abandono do cristianismo pela maioria dos sacerdotes e dos fiéis, em nome de uma inovação, que, na falta de nome próprio, continua sendo chamada católica. Trata-se, porém, de coisa diversa – e esta é a traição dos clérigos propriamente ditos. Trata-se do cristianismo politizado. Do "cristianismo" que aceita o mundo, que o convida a entrar e faz dele seu juiz. Do "cristianismo" que abomina a Doutrina da Igreja, substituindo-a pelas modas filosóficas da ocasião. Nessa nova religião, os ensinamentos de Santo Tomás são relegados a segundo plano. A via mística de Santa Teresa ou de São João Da Cruz é desprezada. A cruzada anti-modernista de São Pio X é descartada. E se alguém, nesse contexto, se sai com alguma pergunta sobre metafísica, ou sobre a Doutrina, é imediatamente calado, seja com uma negação da via racional, seja com um cínico olhar desdenhoso que parece convidar o rebelde a se empenhar mais na luta pela reforma agrária, e deixar essas elucubrações de lado. Ainda mais mal recebido será o que buscar a vida interior, a solidão em companhia de Deus: esse é rechaçado como fascista reacionário, que quer restaurar práticas antigas e ultrapassadas. Sim: os católicos não querem mais ouvir falar da Graça, da Redenção, dos Sacramentos. Estão mais preocupados com o Espírito da História, com a "tradição vivente" (no sentido de sujeita aos influxos históricos). Estão querendo o "diálogo", mesmo que para isso tenham que abrir mão de todos os princípios e pedir desculpas por todos os crimes que não cometeram. Têm, mesmo, vergonha de defender a doutrina da Igreja em público – exceto se for a doutrina social... Se acham que estou fazendo uma caricatura, convido-os à leitura de um pequeno trecho da Gaudium et Spes, produzida pelo Concílio Vaticano II, citada por Gustavo Corção em seu livro O século do nada: "Somos testemunhas do nascimento de um novo humanismo, no qual o homem fica definido, principalmente, por sua responsabilidade diante de seus irmãos e diante da História". Sim, é isso mesmo: somos responsáveis não diante de Deus, mas diante da História. A História, o mundo, fica assim alçada à condição de nova deusa, e os cristãos já podem aderir sem consciência pesada à grande perversão da modernidade: o culto da História, o culto do tempo. A fé em outro mundo é substituída pela fé neste mundo. A vida eterna é substituída pela contingência, pela mais opressiva mundanidade. A transcendência cede seu lugar ao materialismo histórico. O cristianismo fica, oficialmente, substituído por um novo paganismo, com a História no centro do altar e os "pobres" no panteão de santos. Num cenário desses, não é de se espantar que surjam aberrações como a Teologia da Libertação. Betto, Lorscheider, Arns, Hélder Câmara, etc. apenas foram mais longe: mais do que aceitarem o mundo, abraçaram-no e tomaram-no como única realidade. Não é à toa que as autoridades eclesiásticas foram tão boazinhas com as monstruosidades desses comunistas. Como não é à toa que frei Davi pode celebrar missa com rituais africanos, e esse "padre" Marcelo pode fazer aeróbica no meio da praia e dizer que é missa: no novo paganismo ecumênico, vale tudo – menos um retorno às tradições. O cristão – e também a instituição que o representa – não pode, de maneira alguma, tomar a política como sentido de sua vida. O Sentido do cristão é muito superior; é a própria existência voltada para Deus. Esse é o único comprometimento que nos é permitido, é a única coisa necessária. A aposta do materialista, como o jornalista de Reds, é numa ilusão fugaz; a aposta do cristão é numa certeza absoluta e perene. Acontece que esse conjunto de comprometimentos com o mundo acaba atando as mãos da Igreja. O compromisso com a Verdade requer desprendimento. Não é possível falar a verdade sem desagradar alguém (este artigo, por exemplo, poderá até me custar amizades), e o desejo de agradar a todos todo o tempo é o primeiro passo para o reino da mentira e da falsidade. Enfim, como diz o autor da epígrafe: "Para se ocupar dos direitos do homem, existe um número suficiente de pessoas e organizações cujo direito e cujo dever é falar nessa linguagem. Para o mesmo objetivo, o Papa deve empregar a linguagem transcendente pois, como vigário de Jesus Cristo, é a transcendência que ele representa. Reconhecer ao fim da estrada que era o inimigo que tinha razão, calcar suas obras e suas ações sobre as obras e ações do inimigo, é, em si, nefando e vem provavelmente desta má consciência histórica em que a Igreja se deixou embrulhar, para lucro da "revelação" revolucionária." Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1998/23 de Novembro de 1998. Ver outros textos de Alvaro de Carvalho |