A Cólera e a Farsa

(Jornal do Brasil, 23 nov. 1997)
 

 Na última quarta-feira, dia 19, os estudantes Pedro Sette Câmara, Álvaro de Carvalho e Sérgio Coutinho de Biasi distribuíam exemplares de seu jornal O Indivíduo na PUC do Rio de Janeiro, quando foram cercados por uma centena de militantes encolerizados que, desfechando tapas e cuspidas nos seus rostos, ameaçavam surrá-los e depois queimar os exemplares da publicação junto com os corpos dos editores.

 O pretexto para justificar as violências foi que o jornal era "racista". Mas li a publicação inteira e tudo o que encontrei foram críticas ao colonialismo cultural que inspira alguns líderes do movimento negro; críticas manifestamente mais brandas do que aquelas que, em pessoa, venho publicando em livros e jornais, entre os quais a Folha S. Paulo, o Jornal da Tarde e O Globo, que nesse caso hão de ser muito mais racistas do que O Indivíduo.

 No entanto, a reitoria da PUC, em vez de punir os agressores, castigou as vítimas, apreendendo seu jornal e ameaçando-as de sanções disciplinares. Depois, elevando o cinismo a alturas de grande arte, anunciou ainda, orgulhosamente, seu propósito de incentivar novas perseguições no campus.

 Porém o mais revoltante, o mais asqueroso em todo o episódio é o tom hipócrita e santarrão com que os fanáticos, arrogando-se o monopólio do anti-racismo, carimbam com a pecha de racista quem quer que se oponha às suas estratégias totalitárias e às suas táticas criminosas. Terá de haver necessariamente uma e uma única maneira certa de assegurar direitos iguais às pessoas de todas as raças? Todas as outras seriam racismo disfarçado? Quem deu a esses arrogantes o monopólio do bem, junto com uma autorização para cuspir e pisotear quem se afaste de sua grotesca ortodoxia?

 Será preciso ser muito inteligente para perceber que esses líderes autonomeados não amam o igualitarismo racial em geral, mas apenas uma de suas variantes em particular, isto é, aquela que traz às suas pessoas a maior dose de proveito político e lhes dá autorização para instaurar a barbárie em nome da civilização, a tirania em nome da liberdade? Será preciso ser muito esperto para perceber que seu fingido amor ao povo negro não passa, no fundo, de amor aos próprios interesses, de uma insaciável fome de poder?

 As conseqüências da barbaridade que perpetraram na PUC são previsíveis: se seu exemplo for seguido em escala nacional, se críticas tão leves quanto as apresentadas em O Indivíduo puderem ser proibidas e punidas como "racistas", se agredir seus autores se tornar mérito em vez de crime, logo este país estará sob o tacão da mais presunçosa ditadura de quantas já tentaram reprimir pela força o pensamento humano.

21/11/97